CINEMA

COMPORTAMENTO

EDITORIAL

EVENTO

INTERCâMBIO

LIVROS

MEDIUNIDADE

PSICOGRAFIA

SOCIEDADE


EDIÇÃO ATUAL

EDIÇÕES ANTERIORES

COLABORE

FALE CONOSCO

BLOG


Crise amplia número de famintos no mundo

DA REDAÇÃO

Em fevereiro de 2005, publicamos o resultado de um estudo sobre a fome do mundo. A manchete dava o tom da notícia: “Um bilhão vão passar fome em 2005”. É um número difícil de imaginar, considerando as facilidades conquistadas e o controle – social e financeiro – exercido pelos governos. Como seria possível, ao conhecer uma previsão como essa, nada fazer para alterar essa realidade?

Em 2009, devido à crise financeira, a FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – estima que o número de famintos ultrapasse a marca de um bilhão de pessoas. Isso significa que aquelas pessoas que pelo menos há cinco anos passam fome, agora têm a companhia de muitas outras, porque quando o dinheiro não sobra, não chega até os que estão à margem da economia.

Essas pessoas estão espalhadas por todo o mundo, inclusive nos países ricos. Que sombrio mecanismo será esse que impede as pessoas de se verem satisfeitas na mais básica das necessidades humanas?

As ciências humanas prontamente afirmarão que há fatores geográficos e sociais que impedem o desenvolvimento econômico. Essa tese está extensamente desenvolvida no livro “O fim da pobreza”, do economista Jeffrey Sachs. Não há como discordar dessa explicação. Entre os exemplos reunidos no livro, estão a Bolívia, a Polônia e diversos países africanos, envolvidos na chamada “armadilha da pobreza”. Não se consegue sair da pobreza justamente por não se ter recursos. Óbvio e real.

Uma outra possível explicação para a fome é a dificuldade que se tem em dividir a riqueza. Enquanto houver concentração de renda, haverá fome, porque a disparidade entre as classes sociais é inacreditável. Algumas empresas publicam, em seus balanços, a diferença entre o maior e o menor salário. Essa diferença, no Brasil, pode chegar a 1.714 vezes, segundo dados do Ipea. Outros países em desenvolvimento têm diferença entre salários de 20 vezes.

Ainda há um outra explicação, simples e, se verdadeira, suficiente: a fome existe porque não há recursos suficientes para alimentar a todos.

Essa “desculpa” causa um certo constrangimento e indignação. E quem deixou a “máscara cair” foi justamente a crise econômica.

O cineasta José Padilha, diretor do incômodo documentário “Garapa”, comentou o assunto em entrevistas sobre o filme. Garapa retrata a fome de três famílias no nordeste brasileiro. Enquanto a região vive há décadas na situação em que se conhece, castigado pela seca e pela politicagem que absorve os recursos destinados aos necessitados, bastou, no cenário nacional e internacional, um curto período de pânico financeiro para que todos os países se mobilizassem e resolvessem o problema da crise com uma injeção bilionária de recursos. Na verdade, os recursos injetados na economia passaram de 1 trilhão de dólares!

A conclusão é muito clara: não há interesse em se resolver o problema da fome.

Pode-se argumentar, com muita razão, que o colapso financeiro conduziria muitos países à pobreza, e portanto à fome de milhares de pessoas. O raciocínio é simplista e tem dois aspectos. Primeiro: o “mercado”, que já é concentrador de recursos, em um momento de dificuldade vai exigir que o governo dê dinheiro para o setor. Mas como o dinheiro veio dos cidadãos, é como se a conta fosse paga duas vezes.

O outro aspecto é perceber que a pobreza, a educação e a fome não merecem sequer uma parcela de todo esse recurso. Que se ajude empresas e bancos a não fecharem as portas. Mas que também sejam abertas as portas para que se possa ter acesso à dignidade e à autosuficiência.

Isso não está sendo feito, o que vai obrigar os pobres a continuar sendo pobres, indefinidamente.