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Sobre o planejamento familiar

DA REDAÇÃO

O planejamento familiar consiste no controle que um casal estabelece sobre a quantidade de filhos que deseja e a hora em que eles virão ao mundo. No Brasil, esse planejamento está restrito à camada da população com acesso aos recursos e informações necessários à correta execução de seus planos familiares. Por isso, muitos defendem a urgência de um planejamento familiar oferecido gratuitamente à população pelo estado, conforme prevê a legislação. Consideram outros que não deve haver uma imposição do tema, e sim a orientação, proporcionando a melhor decisão possível pelas famílias brasileiras, caso estejam estruturadas o suficiente para pensar sobre o assunto.

Não há dúvida de que o planejamento familiar deveria ocupar um papel central nas discussões sobre qualidade de vida nas cidades, sobre saúde pública e sobre o progresso social dos brasileiros. Como essa discussão e possíveis iniciativas estão ausentes, ideologias nocivas ocupam o seu lugar, como a que se originou do Relatório Kissinger, que recomenda o aborto em países pobres – entre eles, o Brasil – para combater a explosão demográfica, considerada um risco para os Estados Unidos. Fossem dedicados os recursos e a atenção para o planejamento familiar, como hoje se faz com o aborto, e este crime simplesmente não existiria, porque em 93% dos casos, o que há é uma justificativa social: filho indesejado, situação social inconveniente, condições financeiras, perda da liberdade, etc.

O Espiritismo vem adicionar importantes informações sobre o assunto, porque a necessidade de manutenção da espécie não pode ser a única a ser considerada, pois estamos falando da liberdade de escolha do casal, que quer o melhor para os herdeiros que colocarão no mundo. Somos, portanto, possuidores de razão, que deve nos colocar acima das questões biológicas da reprodução da espécie ou sociológicas do crescimento demográfico, ainda que os modelos propostos por essas ciências sejam fortemente comprovados pelos fatos.

A Doutrina Espírita afirma que a reprodução é uma lei natural. Por isso a intensidade da força sexual no ser humano, definindo não apenas a manutenção da espécie, mas também o funcionamento da sociedade e o perfil psicológico dos indivíduos. A força sexual, de controladora, passa a ser controlada pelos indivíduos conscientes, aptos a considerarem o fator humano, mesmo inconscientemente, da reprodução das espécies. Trata-se da reencarnação, a nova oportunidade que nós atualmente estamos tendo para o progresso espiritual. As vidas se entrelaçam não apenas para a formação de um novo ser humano, mas para o crescimento espiritual do grupo familiar. Por isso afirmamos não haver acasos na formação dos quadros familiares complexos da atualidade, que atraem as almas necessitadas daquela experiência particular, nos caminhos da sua jornada evolutiva.

Há, portanto, um planejamento familiar e um planejamento espiritual em nossas vidas. Ambos devem estar em harmonia, o que acontece naturalmente quando o casal contrói seu lar em bases retas de harmonia e respeito. Por isso, é equivocada a opinião de que o planejamento espiritual basta para os casais espíritas – a rigor, para qualquer casal. Porque, argumenta-se, o planejamento espiritual definiria a melhor escolha e configuração para as famílias humanas, não sendo necessário nenhuma forma de inibição da gravidez. Analisando essa teoria, é difícil concluir que haja planejamento superior nas periferias brasileiras, onde famílias miseráveis contam com até sete filhos, nascidos de relações instáveis entre casais diferentes. O que se observa ali é a falta de perspectivas sociais e espirituais, que faz do renascer de um espírito um simples fenômeno biológico incompreendido e indesejado.

Para ilustrar a relação entre a perspectiva social e o planejamento familiar, o economista Jeffrey Sachs, em seu livro “O fim da pobreza”, mostra como a ascensão social das mulheres de Bangladesh fez com que a natalidade passasse a ser naturalmente controlada. Na década de 1960, as mulheres da zona rural do país tinham seis ou sete filhos. Hoje, beneficiadas pelo crescimento da indústria têxtil, essas mulheres encontraram novas formas de ocupação profissional, saindo da condição de meras reprodutoras para conquistar espaço e respeito na sociedade. Assim, em uma conversa com cerca de 30 dessas mulheres da zona rural, envolvidas em iniciativas de micro-finanças, Jeffrey e sua equipe perguntam: quantos filhos vocês têm? Cinco, quatro? Ninguém ergueu a mão. Três? Uma única mulher. Dois filhos? Cerca de 40% delas, enquanto 25% tinham apenas um filho. Então os pesquisadores perguntam: quantos filhos vocês querem ter? Cinco, quatro, três? Ninguém se manifestou. A grande maioria desejava apenas dois filhos.

Isso significa que o planejamento espiritual, que é o fator causal da vida material, é sem dúvida determinante para os acontecimentos da vida. Porém, quando adquirimos responsabilidades espirituais, nossa liberdade aumenta, o que nos oferece possibilidades para escolhas importantes em nossa existência.

Somos donos da tarefa de concretizar no mundo físico todas as grandes virtudes de que somos capazes.